O Poder da Premissa Estruturada
Eu gostaria de lhe trazer uma história de sucesso, mas o que vou lhe contar mesmo é a história de um fracasso. Meu, aliás.
Trata-se da história de uma estória que, tal como a Viúva Porcina, foi, sem jamais ter sido.
Pois veja:
Em 2005 comecei a ter vislumbres de um personagem, que afinal apareceu em alguns de meus contos. Era uma boa aposta, e assim, um ano depois, comecei a construção de um romance.
Já com mais de 150 laudas escritas, descobri que:
- Não conseguiria um final consistente para minha estória;
- Não conseguia dizer claramente de que se tratava o romance, apesar dos muitos capítulos já escritos; e
- Pior que o resto, o meu personagem cedera espaço para o coprotagonista, que se tornara mais e mais presente e estava lhe roubando a cena.
Tive que enfrentar a realidade de que não sabia nem de quem eu contava a estória e nem qual seria o seu final. Assim, apesar das pesquisas, de todos os momentos interessantes ou hilários do manuscrito, eu não tinha ali um livro.
Passados quatro anos, já sei que o erro foi de origem. Foi a forma pela qual comecei.
Alguns escritores detestam saber o final de seu próprio livro. Dizem que isso torna o processo sem graça; que anula o seu incentivo para escrever.
Simplesmente, começam com uma situação na cabeça e, talvez, um personagem que aparente ser forte o suficiente para segurar a trama de um livro com duzentas laudas.
Um dia, pela manhã, ligam o notebook, e vão em frente.
Alguns poucos têm sucesso. Outros, quando se descobrem num beco sem saída, retornam parte do caminho até o ponto em que consideram que podem continuar. Jogam fora, às vezes, centenas de folhas já escritas – Fernando Sabino disse que para produzir as trezentas páginas do manuscrito O Encontro Marcado, escreveu mais de mil e trezentas.
O comum, no entanto é uma de duas situações:
Ou o autor, deparando com um atoleiro lá pela centésima página de seu projeto, personagens que perambulam feito fantasmas através de sua quase estória, fazem um backup de seu arquivo e deixam para um melhor momento. Que aliás, prima por não estar em nenhum horizonte visível.
Ou então, mais triste ainda, o romance termina com um final ajeitado de qualquer forma, com personagens que bateram em alguma parede e por lá ficaram, e pontas de tramas sobrando por toda a parte. Começa então a cruzada pelas editoras na busca mal sucedida de alguém que queira publicar o seu livro no qual só sua mãe acredita. No final, através da editora ou de um empréstimo no banco, um resultado certo – O encalhe abissal de 950 exemplares de uma edição de 1000, embaixo de sua cama.
Não vamos, no entanto, pensar em resultados tão desastrosos. Vamos imaginar que você tenha uma boa idéia.
Além de uma boa definição dos personagens, com detalhes físicos, psicológicos e até sua biografia, o que precisamos para iniciar um livro é o que é chamado de premissa estruturada.
Mas, antes da premissa...
Qualquer estória é baseada em elementos fundamentais. Por exemplo, não há estória sem um protagonista. E este protagonista tem um desejo. Mas, para a estória ter graça, tem que haver conflito. Conflito este provocado pelo antagonista, que provavelmente persegue o mesmo objetivo que o protagonista e faz tudo para derrotá-lo.
No decorrer do livro o protagonista faz sucessivas tentativas de atingir o seu objetivo, no que é sempre impedido pelo antagonista. No final, é claro, acontece o clímax, onde o herói derrota o inimigo e temos a solução para o conflito. Mas até lá o protagonista passa por sucessivos desastres, sem ter o seu objetivo alcançado, até a vitória ao final.
Vamos então à premissa:
Para o sucesso do que chamamos de premissa estruturada é necessário que o autor tenha muito clara a questão principal do livro.
Note que estamos falando da pergunta principal do livro, e não de uma resposta. Até porque o leitor quer saber de perguntas, e não de suas respostas. Se souber, termina de ler, e está acabado...
Esta grande pergunta envolve a situação, o protagonista, o seu desejo, o antagonista e o que este faz para impedir o protagonista de atingir os seus resultados.
As partes da premissa
A premissa estruturada se divide em cinco partes, envolvendo cada uma os elementos expostos acima.
- A situação central da trama
- Quem é o personagem principal
- Qual é a sua grande necessidade
- Quem é o antagonista
- e o que ele faz para impedir o protagonista de atingir os seus objetivos
Do item 1 até o a metade do item 3, a premissa deverá ser construída com afirmações. A partir daí, constrói-se a pergunta que compões a parte principal da premissa, envolvendo também os itens 4 e 5.
Para entender a construção da premissa, nada melhor do que exemplos.
Vejamos, para começar, a estória de Batman, de acordo com o filme de Tim Burton de 1989. Assim seria a sua premissa:
- Em Gotham City, cidade habitada por uma sociedade burguesa degradada pela corrupção policial, abusos ambientais, excessos corporativos, ganância e imprensa sensacionalista e manipulada,
- Bruce Wayne
- Assume a identidade de Batman para lutar contra o crime. Será que Bruce conseguirá vencer o principal criminoso, que é
- O Coringa
- Que tudo faz para dominar a cidade e matá-lo?
Vamos a outro exemplo, que é a estória “Brinquedo proibido”, do filme de René Clement (1952).
Veja a premissa, tal como ficaria:
- Em pleno cenário da guerra, e após sobreviver a um bombardeio que lhe mata a família e seu cachorro de estimação
- A pequena Paulette, de cinco anos
- Se torna amiga de Michel, um menino de 11 anos, cuja família adota a garota. Será que os dois conseguirão manter a sua amizade e seu mundo de fantasia, apesar dos
-
adultos
- Que não os compreendem e os oprimem com sua barbárie e seus preconceitos?
Viu como fica claro? A premissa lhe indica a força de sua ideia. Uma boa premissa é a garantia de que você tem uma boa estória nas mãos!





